Cruz e Sousa Obra Completa Volume 1

A ARTE SIMBOLISTA DE CRUZ E SOUSA
Como integrante da ala dos poetas novos, Cruz e
Sousa não pretendeu, com Broquéis, impor uma escola
literária nova – a simbolista. Não se adote, entretanto,
atitude tão radical como Wilson Martins que, no estudo
“O Cisne Negro”, publicado no Suplemento Literário de
O Estado de São Paulo (24 fev., 1962) ironiza mordazmente
as “idades” comtianas da poesia de Cruz e Sousa,
segundo quer impor a crítica ao poeta, radicalizando
negativamente também “que o prosador em Cruz e Sousa
é, com grande freqüência, medíocre e menos que
medíocre”. Se tenta, com razão, complementar algumas
posições de Andrade Muricy, por exemplo, afirmando que
esse foi “um poeta para quem os valores visuais somente
existiam enquanto poesia através de manifestações
sonoras”, ressoa muito polêmica a afirmativa de que “o
simbolismo de Cruz e Sousa foi-lhe imposto em boa
medida pela crítica, é um simbolismo de intenção mais
que de substância”.
Sabe-se que, desde o início do surgimento da
poesia de Cruz e Sousa, se a crítica oficial de Sílvio
Romero e Araripe Jr. abriram espaço para o novo ideário
poético, José Veríssimo opôs radical resistência.
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 57
Sílvio Romero, em Livro do Centenário (Apud
Cassiana Lacerda Carollo, 1981 p.80-81), deixou de lado
todo o seu caráter polêmico e reconheceu em Cruz e
Sousa uma legítima inovação poética, considerando-o
“a muitos respeitos o melhor poeta que o Brasil tem
produzido”, porque “é o nosso simbolista puro, o rei da
poesia sugestiva”. Manifesta mesmo que “dá prazer ao
crítico avistar-se com um homem destes, um íntegro,
um nobre espírito de eleição”. Na poesia de Cruz e Sousa
“ressaltam de todas as suas composições uma elevação
d’alma, uma nobreza de sentimentos, uma delicadeza
de afetos, uma dignidade de caráter que nunca se
desmentem, nunca se apagam(…) Inspirados pela
natureza, pelo infinito cenário do mundo exterior, ou
pelas peripécias da vida, pelos atritos da sociedade, ou
pelas dores íntimas de seu coração, os seus versos são
sempre simples, espontâneos, sinceros, como as
confissões de uma alma limpa e digna. Nada de pose.
Outra qualidade da arte de Cruz e Sousa é o poder
evocativo de muitas de suas poesias. Ele não descreve
nem narra. Em frases vagas, indeterminadas,
aparentemente desalinhadas, sabe, por não sabemos
que interessante e curiosa magia, atirar o pensamento
do leitor nos longes indefinidos, sugestionando-lhe a
imaginativa, fazendo-o perder-se nos mundos
desconhecidos, sempre melhores do que aquele em que
vivemos”(…) Ele é o caso único de um negro, um negro
puro, verdadeiramente superior no desenvolvimento da
cultura brasileira”
José Veríssimo, entretanto, resistiu à pessoa e
poética de Cruz e Sousa, conforme atestam seus Estudos
de Literatura Brasileira (6a série, 1977, p.96-102). Ainda
quando saiu, postumamente, o último livro – Últimos
Sonetos, em 1905, declarou que a piedade e a ação dos
amigos do poeta, sobretudo de Nestor Vítor,
“modificaram de muito o juízo que desde o seu primeiro
livro de versos fiz do malogrado poeta preto”. Entretanto,
continua afirmando que os seus sonetos “não significam
coisa alguma”; que, na sua leitura, sente “a sua
58 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
impossibilidade de exprimir o que acaso sentiria”. Seus
versos “têm a monotonia barulhenta do tam-tam
africano. O homem que os fez, devia ser extremamente
sensível às grandes sonoridades ruidosas”. Não obstante,
“Cruz e Sousa foi um grande poeta, e os dons de
expressão que faltam evidentemente ao seu estro, os
dons de clara expressão, à moda clássica, os supriu o
sentimento recôndito, aflito, doloroso, sopitado, e por
isso mesmo trágico, das suas aspirações de sonhador e
da sua mesquinha condição de negro, de desgraçado,
de miserável, de desprezado”. Não obstante toda
resistência, não pôde deixar de reconhecer que se
tratava de “, sendo o autor “um verdadeiro, um esquisito
e raro poeta”.
Nestor Vítor (1969, p.12, 18, 24, 28), o amigo mais
próximo, da maior confiança, e que foi o depositário de
todo o acervo deixado por Cruz e Sousa, analisou e
exaltou o alto nível do seu poema, em estudo elaborado
em 1906, tendo por objetivo fazer “o esboço do estudo
emocional de uma alma”. Discorre muito sobre arte, “a
Arte eterna, a simples Arte. É una e indivisível, embora
em cada artista se manifeste por uma nova nota, em
cada época por diversa expressão…”. Conhecendo
estreitamente a vida e a alma do poeta, não hesita em
afirmar que “Cruz e Sousa é um fanático da Arte, como
as Santa Teresa são as fanáticas da Religião”. Mais
adiante, acrescenta que “Ele é o povoador do Espaço,
devido a um pessimismo radicado em seu espírito pelas
condições de habitabilidade da Terra”; entretanto “Tudo
o que lhe sai da pena é mais ou menos uma
transfiguração”. Especificando melhor, pontua que “a
Arte, como ele a compreende, Arte pela Arte,
independente de paixões que a escravizem, que façam
dela o seu veículo, inferiorizando-a, tirando-lhe o caráter
de sua independência suprema, Arte que é vida e que é
morte, que é chama e que é néctar, Arte sacerdócio,
Arte abstração absoluta e decidida loucura, essa é o
seu domínio, essa é o seu mundo, é o seu alimento e o
seu sono, é o seu sonho e a sua realidade exclusiva”.
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 59
Se o Simbolismo “postula a existência de um
mundo transcendente”, no seu quarto estudo, Roger
Bastide (in Afrânio Coutinho, 1979, p.174-189) se
debruça mais especificamente sobre “o drama simbolista,
o da tradução verbal do inefável”. O Simbolismo, para
alcançar o mundo das Essências, precisava
primeiramente destruir o mundo concreto. Com tal
objetivo, “dirigir-se-á Cruz e Sousa ao crepúsculo e à
noite, que diluem as coisas materiais em um nevoeiro
de fantasia, em um mundo de sonho”. Especifica depois
que, para o poeta, “o verdadeiro meio de tornar irreal as
coisas e, por conseguinte, de as fazer mais próximas do
espiritual, é diluí-las no sonho, na noite”. Como
resultado, o simbolismo de Cruz e Sousa “é uma
experiência sofrida e vivida do símbolo no interior de
uma busca espiritual. Por isso mesmo, é marcha para o
misticismo cristão”. Enfim, “a poesia do nosso poeta
termina, destarte, no processo inverso do que existiu
no seu ponto de partida. Tinha começado pela dissolução
das formas exteriores dos objetos, diluindo-os na bruma
do sonho, e termina pela volta à matéria, porém matéria
sutilizada e preciosa, cintilação de cristal ou de jóia,
certamente encarnação da Forma Inteligível, mas
encarnação em algo que nada mais tem de sensual e
que nada retém do calor do concreto” (p.182-189).
Impõe-se resguardar, por justiça e mérito, que
em Cruz e Sousa persistem duas faces: a da poesia, que
se impôs, inegavelmente, e a da prosa, nem sempre
devidamente avaliada. Nereu Corrêa (1981, p.16-18), nas
comemorações do centenário de nascimento do Cisne
Negro, elaborou página lapidar sobre essa dupla face:
“O Cruz e Sousa da poesia não é o mesmo Cruz e Sousa
da prosa. Eu diria que os versos são o livro branco do
poeta, e a prosa o seu livro negro. De fato, na poesia
vamos encontrar o homem que transpôs a linha de cor,
o ariano, o espírito depurado, livre dos complexos que o
perseguiram. Ariel librando-se no espaço, nas brumas
do seu ‘sonho branco’, enquanto na prosa está o negro, o
africano, o ‘emparedado’. Prometeu acorrentado às suas
60 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
origens, o filho de Cam vivendo o drama da raça, em
suma, o homem e o seu desespero. Na poesia é o poeta
de amores tímidos que sonha com donzelas castas, de
‘virginais alvuras’, que celebra a mulher loura, do tipo
nórdico, ‘espiritualizada por nimbus de angelitude’. Na
prosa encontramos a Núbia, a apologia da cor negra e,
apesar do conflito que às vezes se observa entre a libido
e o espírito sublimado do artista, a besta se liberta
daquelas páginas baudelairianas, de intenso realismo,
como Vulda e Tenebrosa, em que o poeta não consegue
sopear os ímpetos da carne, afundando na luxúria e no
pecado. Na poesia ouvimos os violinos tocando em
surdina; na prosa é o retumbo dos tambores africanos
ressoando no fundo das selvas. Na poesia está o Sonho;
na prosa está a Dor. Uma é fuga para as regiões oníricas,
com breves estágios no mundo real, a outra é o regresso
ao imanente, a volta ao ser, o reencontro com a realidade
em páginas de ‘asco e dor’, em que o próprio sonho,
quando ocorre, está carregado de duendes e de
pesadelos. Lá é o mundo encantado do poeta; aqui é o
desabafo do homem. Eis porque a sua prosa é uma obra
amarga, irônica, sarcástica – uma explosão de
recalques”.
Para concluir, avalie-se o paralelo que Henriqueta
Lisboa (mineira!) traçou, em conferência (Rio, Jornal do
Comércio, jan., 1938), entre os dois maiores simbolistas
brasileiros: “Cruz e Sousa nascido no litoral reagia
violentamente contra todas as coisas, como que ao
influxo de mares bravios. Abrigado pelas montanhas
centrais, o espírito de Alphonsus evoluía em serenidade,
buscando uma nova arte como quem espreita o
nascimento de uma estrela. Se o primeiro traduzia a
revolta do inconquistado, o segundo se resignara diante
do inelutável. Cruz e Sousa soberbo, descontrolado,
ríspido. Alphonsus modesto, equilibrado, insinuante. Nas
cavalgadas, nas grandes fugas, nos troféus e nas
apoteoses, encontrou o poeta de Santa Catarina suas
alegorias. Para o solitário das montanhas os jardins, os
cemitérios, os recantos enluarados, as olheiras de veludo
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 61
foram motivos de inspiração. Na poesia do negro há
obsessão de claridade e alvura; multiplicam-se lírios
astrais, esferas cristalinas, dalmáticas de neve, lácteos
rios, clarões que alagam, marfins e pratas diluídos,
regiões alpinas, opulência de pérolas e opalas. Nos versos
de Alphonsus são crepes, sombras funerárias de
ciprestes, véus de confessandas, luares de desamparo,
altares quaresmais enfeitados de roxo. E porque
sintetizaram ambos, de modo tão diverso, dois caracteres
estruturalmente brasileiros, o impulsivo e o
contemplativo, são as duas figuras mais nítidas do
simbolismo brasileiro”.
Não obstante todos os preconceitos sentidos, não
obstante as paixões vividas, não obstante as resistências
impostas para sufocar sua poesia, Cruz e Sousa
permanece, vive e refulge, hoje, cada vez mais
intensamente, nos seus poemas. A sua poesia,
entretanto, somente poderá permanecer ativa e
dinâmica através do seu diálogo interativo com o leitor.
O poeta, como autêntico “Assinalado”, “triunfou e sabe
que descansa” com seu “Dever cumprido”. Ao leitor cabe
a missão de assegurar esse “Triunfo supremo” e,
revivendo seu poema, povoar “o mundo despovoado/ de
belezas eternas, pouco a pouco”.
Cruz e Sousa não se lê, porém, num apressado
correr de vistas pelas páginas. Seu poema exige leitura
lenta e retomada, com abertura para o mundo interior.
Surgido quando predominavam o cientificismo e
positivismo, de enfoque pragmático, materialista e
concreto, o simbolismo contrapôs uma radical abertura
para o mundo interior e transcendente, para o imaterial,
vago e abstrato, para imagens diluídas, de pluralidades
abstratas, de vagas ambiências litúrgicas.
Sufocado por esta “vida obscura”, pelo “cárcere
das almas”, pela matéria que degrada, Cruz e Sousa
explorou assiduamente os contrastes, na tendência
impositiva de subir, ascender, elevar-se para o “Espaço
da Pureza”, para a “Suprema Altura”, para as “Estrelas
do Infinito”, região eleita para expandir as aspirações
62 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
de transcendência.
Dessa forma, Cruz e Sousa preservou e cultuou,
na sua poética, o Mistério, mistério do ser e da
existência, mistério cada vez menos vislumbrado em
nossa civilização tecnológica, mistério sufocado pelo
liberalismo pragmático e imediatista. Ler Cruz e Sousa
exige abertura do coração para assumir o mistério dos
caminhos e descaminhos da existência, para
compreender o sentido da finitude da matéria concreta;
exige contenção da pressa em apossar-se e permanência
fruidora e reflexiva num mesmo poema, exige domínio
da ânsia de devorar rapidamente todo o livro, porque
cada poema constitui um universo a ser penetrado e
fruído na sua individualidade única. Assumindo essa
atitude, este livro oferece um tesouro de sensibilidade,
de poesia, de arte. Assimilar, lentamente, a sua beleza
constitui arte tão nobre quanto a do escritor.
Lauro Junkes

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Cruz e Sousa Obra Completa Volume 1

UM POETA NEGRO
Se, no seu tempo de vida, Cruz e Sousa sofreu os
mais diversos preconceitos por sua cor, e a cultura oficial
praticamente não lograva ver nada de positivo na sua
poesia, pelo fato de ser negro, posteriormente muitos
estudos focalizaram aspectos positivos da poesia do negro
Cruz e Sousa, entre eles: Joaquim Ribeiro (“Vestígio da
concordância bantu no estilo de Cruz e Sousa”,1947);
Carlos Dante de Morais, sob perspectiva psicanalítica,
no livro Três Fases de Poesia (“Simbolismo: Variações
sobre um Poeta Negro”), 1960; Massaud Moisés, nos
“Três estudos sobre Cruz e Sousa”, especificando o
terceiro: “Cruz e Sousa e a angústia da cor” (agora
defendendo o branco como preferência do simbolismo,
pois “o branco traduzia o anseio de identificação com o
Absoluto”), publicados no Suplemento Literário do Estado
de São Paulo (in COUTINHO, Afrânio, 1979); Tristão de
Athayde (“O Laocoonte Negro” – Rio, Jornal do Brasil, 9
out., 1975); Andrade Muricy (sobretudo em “O Cisne
Negro Cruz e Sousa”), enquanto Sílvio Romero, já no
Livro do Centenário não hesitava em afirmar que “Ele é o
caso único de um negro, um negro puro, verdadeiramente
superior no desenvolvimento da cultura brasileira”
Para Nestor Vítor (1969, p.21, 26 e 27) “Cruz e
Sousa é um homem preto, e por ser tal é a essa
qualidade que o mundo lhe há de atribuir muitas das
suas qualidades extraordinárias que são defeitos aos
olhos vulgares, e todos os defeitos e deficiências que
ele tenha e que tem realmente em sua obra”. Afirma o
grande amigo do poeta que da “sua aristocracia
intelectual” e do “seu caráter independente e nobre”
decorreram os seus “trágicos lanceamentos d´alma”,
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 51
porque a regra geral é que “o meio comum de que dispõe
o homem preto para assimilar-se às sociedades
civilizadas é a subordinação passiva do hilota…”, sendolhe
vedado pretender “na sociedade um lugar a que tem
direito mesmo qualquer homem comum”. Discriminado
de tal modo, como “exigir que depois disto ele continue
a amar entranhadamente a sociedade e os homens”?
Então “o único partido relativamente nobre que ele tem
a tomar é um desdém orgulhoso” e o “desdém pelo vulgar,
pelo que obedece à convenção e é o seu produto
necessário” constitui, em Cruz e Sousa “quase que uma
perfeita obsessão”. Em outro escrito, Nestor Vítor (1923,
p.133) vê em Cruz e Sousa um “filho de Cam que nasceu,
por sarcasmo do destino, para a alta vida do espírito”.
Roger Bastide, em A Poesia Afro-Brasileira, de 1943
(in Afrânio Coutinho, 1979, p.157-189) elaborou uma das
mais decisivas análises, com tendência psicanalítica e
antropológica, para elevar a glória de Cruz. Dos quatro
estudos, dois privilegiam a análise da condição do negro:
“A nostalgia do branco” e “A poesia noturna de Cruz e
Sousa”. Estabelece, a seguir, uma comparação com
Baudelaire e, finalmente, e na parte mais exaltante,
situa honrosamente o “lugar de Cruz e Sousa no
movimento simbolista”.
Segundo Bastide, no estudo “A Nostalgia do Branco
(p.159), salientou o que representava a poesia para o
torturado poeta e por que assumiu a estética simbolista:
“Cruz e Sousa sentia nitidamente que a arte era um
meio de abolir a fronteira que a sociedade colocava entre
os filhos de escravos africanos e os filhos de brancos
livres; é por isso que sempre foi logo ao topo que lhe
pareceu o mais ariano de todos”, ou seja, a arte
simbolista, “uma arte preciosa, requintada, difícil, cheia
de matizes e de delicadeza, que se dirige a uma pequena
elite e classifica, conseqüentemente, o seu adepto no
recesso de uma aristocracia da aristocracia”. Entretanto,
se a “nostalgia da cor branca marca a sua obra”, como
também insiste Montenegro, tenha-se claro que o branco
foi mesmo a cor preferida dos simbolistas franceses,
52 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
como logo a seguir o próprio Bastide reconhece: “O
simbolismo europeu é essencialmente a apologia do
branco”. Ressalta, entretanto, Bastide (p.163) que “Cruz
e Sousa é repelido pela sua raça e condenado,
felizmente, a ser muito mais do que um grande poeta
simbolista, o mais admirável cantor de seu povo”.
Sob outro aspecto, na poesia de Cruz e Sousa a
noite tem função muito importante, essa noite,
“destruindo as linhas e as prisões das coisas, transforma
o mundo em uma espécie de vácuo sombrio, de matriz
quente e viva em que é bom se perder e se anular”.
Noite que assume “dois aspectos na obra de Cruz e Sousa.
Ora, muito doce e muito boa, como se fora uma carícia
do céu, ou um vôo de anjos brancos: é noite dos
simbolistas. Ora, a noite feiticiera, satânica, povoada
de terrores e fantasmas. É o que chamarei o tema da
noite africana. Cruz e Sousa aceitou a sua raça. Aceitou
a sua mãe negra, que não pôde beijar no momento da
morte”. (p.165-166)
A arte poética de Cruz e Sousa, na qual podemos
apreender um complexo contraponto entre o Emparedado
e o Assinalado, explica-a Abelardo Montenegro (1998, p.
197s): “A arte incomparável do verso não tem, em Cruz,
por base a filosofia. Não há a admirável fusão da razão e
da emoção. A poesia do bardo negro brotava da própria
situação dramática em que este vivia. Cruz utilizava-a,
antropocentricamente, na proclamação das contingências
amargas do seu cotidiano. O seu verso, assim, não
era só música como exigia Faguet, nem só idéia como
queria Flaubert, mas a ‘negação da iniqüidade’,
compreendendo-se esta no sentido de injustiça contra
o poeta negro”.
Henrique Lisboa, no estudo “Cruz e Sousa”, de
1955 (in Afrânio Coutinho, 1979, p.225–238), analisa a
dor imensa sofrida pelo poeta, mas destaca que, “apesar
de toda essa lenta agonia, Cruz e Sousa não foi um
pessimista”. Fazendo desfilar autores pessimistas, como
Machado de Assis, Raul Pompéia, Augusto dos Anjos,
Rimbau e Baudelaire, ressalta: “não Cruz e Sousa, a
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 53
pugnar por mundos ideais com veemência de apóstolo, a
levantar nos quatro horizontes as suas torres de vigia,
a atribuir à dor uma purificadora missão, ao sonho um
papel libertador, a encontrar na beleza os caminhos de
Deus. Do vale do sofrimento se ergueu, em gigantesca
ascensão, a sua ética. E é isto que imprime tanta
grandeza e tanta dramaticidade à sua obra” E acrescenta:
“Admira que um homem de cor e condição modesta, sem
nenhum ambiente preparatório, seja exatamente o poeta
da vida interior, de intensidade raras vezes igualada
em país tropical”.
Para Gonzaga Duque – que conviveu com o poeta
em redações de jornais –, no artigo “O poeta negro”, de
1960 (1978, p.99), Cruz e Sousa trazia a “inata
desconfiança da sua raça”, que mais se exacerbou com
as “decepções e os desenganos” e, “devido a isso que o
seu tipo tomou o feitio retraído, melhor caracterizandoo
– esconso, que lhe dava à exterioridade o quer que
fosse de arisco e agressivo ao mesmo tempo, pondo-lhe
fulgores de sátira nos olhozinhos rebuscadores e
arrepanhando-lhe a comissura dos lábios, à direita, num
vinco de motejo em permanente ameaça. Esse exterior
prejudicou-o muitas vezes”.
Mereceria uma reflexão mais profunda a rápida
observação feita por José Guilherme Merquior, no livro
De Ancheita a Euclides – Breve história da literatura
brasileira.(1979, p.141): “Do ponto de vista da aceitação
social, a biografia de Cruz e Sousa, poeta ‘maldito’, é o
inverso da do mulato Machado de Assis, que teve sua
carreira de escritor glorificada pelo establishmen
cultural”. Considere-se, por exemplo, o que ocorreu em
1896-1897, quando da fundação da Academia Brasileira
de Letras, na qual o brilho de Machado de Assis assumiu
de imediato a Presidência, pelos restantes anos de sua
vida, enquanto Cruz e Sousa foi simplesmente ignorado.
A propósito, Múcio Leão, conhecedor da nossa literatura,
em “Saudação de letras” publicado no Jornal do Comércio
(Rio de Janeiro, 29 nov., 1959) indagava: “Como
compreender que em uma Academia Literária que se
54 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
fundava em 1896, tivesse deixado de figurar um poeta
sem igual como Cruz e Sousa – já naquele tempo o autor
glorioso dos Broquéis?” Abelardo Montenegro (1998, p.186)
confronta os dois escritores. E Magalhães Júnior (1975,
p.310ss) tenta explicar por que Cruz e Sousa não foi
admitido na ABL, uma vez que “a exclusão de Cruz e
Sousa não seria por falta de bagagem volumosa” e sim
porque “havia preconceito, sim, mas preconceito literário.
E preconceito de grupo. Continuava acirrada a guerra
entre os parnasianos e os simbolistas”. Pondera, mais
adiante que “é preciso reconhecer que duas razões a
explicam” (a exclusão): “a guerra literária era cada vez
mais acesa, embora os aplausos, as animações dos novos
lhe mitigassem os efeitos” e “o próprio temperamento
de Cruz e Sousa. Temperamento de luta, acirrador do
dissídio”.
Paulo Leminski, no livro Cruz e Sousa (1983),
ressalta bastante o drama que Cruz e Sousa sofreu
devido à cor da sua pele. Por isso, afirma (p.9) que a
“figura de retórica mais adequada para a vida de Cruz e
Sousa é o oxímoro, a figura da ironia, que diz uma coisa
dizendo o contrário”, especificando mais adiante (p.19)
que “o fado do poeta já estava inscrito em seu nome e
no da cidade onde nasceu: Cruz, Desterro”, para
ponderar, em outra parte (p.67), que “a figura prevalente,
na poesia de Cruz e Sousa, não é a aliteração, nem a
harmonia imitativa onomatopéia dos sentimentos nem
a ecolalia, mas o anagrama”, isto é, “palavras sob
palavras”, como nos versos de “O Assinalado”: “Faz que
tu’ALma suplicando GEMA [ALGEMA] / E rebente em
estrelas de ternura”. Não fosse a cor negra, certamente
Cruz e Sousa percorreria outro itinerário poético.
Uelington Farias Alves (1990, p.15), em Reencontro
com Cruz e Sousa, tenciona pontuar com firmeza a
condição negra do Cisne Negro: “A falácia de que Cruz e
Sousa foi um ‘negro-branco’ desmancha-se no ar das
consciências comprometidas com o jogo do difuso, do
incoerente, do inadmissível. Dentro de uma noção de
tempo e espaço, o que vemos é um jovem poeta e
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 55
jornalista idealisticamente comprometido com a
mudança da sociedade a qual quer submetê-lo, por meio
de regras estabelecidas autoritariamente, à condição
de humilhação social em função da cor de sua epiderme.
Resistindo a tudo isso, o poeta projeta-se para a esfera
da luta política e ideológica, e como poeta e tribuno
desloca a questão do negro para a cena principal da vida
brasileira”.
Zahidé L. Muzart (1991, p.10), em “Defesa e luta:
A poesia de Cruz e Sousa”, conclui seu estudo
introdutório do fascículo Cruz e Sousa da Série Resgate
de Escritores Catarinenses: “O poeta trilhou um caminho
inverso. A não aceitação da raça leva-o a optar pela
cultura branca e até pelo Parnasianismo. Com a
capitulação, advinda somente na maturidade, o poeta
aceitará o primitivo como arte e já que arte e vida estão
intimamente ligadas, pelo amor à mulher negra, Cruz e
Sousa reencontra suas raízes verdadeiras e alia a este
sentimento do primitivo, do bárbaro, a apropriação da
cultura branca agora transformada. Não mais ele, negro,
a serviço da cultura branca mas esta dominada agora
pelo poeta e livremente admitida por ele como linhas
íntimas de seu texto. Na sua busca para escapar às
origens, haverá um reencontro com essas origens o que,
nos seus poemas noturnos, nitidamente os mais belos
de sua obra (Faróis), vão lhe propiciar o encontro com a
liberdade”.
Enfim, a negritude está muito bem analisada em
Ilka Boaventura Leite (1994, p.97) “Identidade negra e a
expressão literária: o visível e o invisível em Cruz e
Sousa”: “Cruz e Sousa viveu num período de transição,
permeado de ambigüidades e contradições: nasceu em
1861, num país escravocrata, recém ex-colônia de
Portugal e submisso à Inglaterra. Morreu numa república
de coronéis e oligarcas incapazes de superar as bases
hierárquicas que os produziram”. A condição de “negro
criado como branco” trouxe benefícios mas também
dificuldades para o poeta: dessa forma ele cresceu,
intelectual e socialmente, assimilando o mundo da
56 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
cultura dos brancos, o que fortaleceu seu orgulho, sua
disposição de luta; porém, ao querer assumir a dignidade
e os direitos dos brancos, sofreu resistências, negandose-
lhe o reconhecimento concedido à “normalidade” dos
brancos. “Cruz a Sousa não é pele, é essência”. Cruz e
Sousa constata que o direito pleno à cidadania lhe é
negado; parte, então, para a conquista árdua de uma
cidadania própria, ou então, o reconhecimento de uma
cidadania plena para os negros, independente da cor
da pele. No entanto, a sociedade procurou ignorar essa
sua luta. Dessa forma, somente através dos seus escritos
poéticos, e assim mesmo no decorrer do tempo, após
sua morte, Cruz e Sousa conquistou seu lugar na
sociedade, na medida em que sua produção se tornou

visível à sociedade brasileira.

Cruz e Sousa Obra Completa Volume 1

UM POETA RENOVADOR
A poesia simbolista de Cruz e Sousa, inaugurada
em 1893, não representava imitação francesa, mas se
apresentava com caráter renovador. Fazia ele parte de
um grupo de poetas novos, não integrantes da oficialidade
parnasiana. Broquéis, de 1893, foi recebido como sendo
poesia diferente, porém considerada uma espécie de
transplante do simbolismo francês. Entretanto, Cruz e
Sousa não foi simples epígono, mas autêntico renovador.
Nestor Vítor (1969, p.12), em trabalho já escrito
em 1896 e publicado em 1898, destaca: “Cruz e Sousa
é, na verdade, um moderno, porque traz consigo a
qualidade essencial para isso, que é a da originalidade
oportuna”, ressaltando depois “esse horror que tem Cruz
e Sousa pelo convencional e o comum…” Mais tarde, em
1914, o mesmo Nestor Vítor (1969, p.136), referindo-se
a Faróis, salienta que “Cruz e Sousa, no entanto –
maravilha que no futuro há de, forçosamente, atrair o
interesse do mundo –, traz como poeta uma natureza
tão nova, tão natural, que é comparável, desse ponto de
vista, à de um Rimbaud, filho do mais civilizado país do
mundo”, acrescentando duas páginas depois “Cada vez
mais a crítica atual vai demonstrando: o simbolismo
proveio de uma intuitiva reação espiritual tão
transcendente, que lateja nele todo um mundo novo. A
filosofia desta hora nasceu das suas sugestões”. E no
mesmo escrito, inclui que “Cruz a Sousa é um precursor
três vezes: precursor de sua raça, precursor de uma
46 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
nova orientação no mundo do espírito, precursor de uma
parte do Novo Continente, pois que só agora ela está
querendo dizer ao que vem”.
Também José Oiticica, no artigo “O Poeta Negro”,
publicado no Correio da Manhã (17 mar., 1923), aponta
como Cruz e Sousa é “o grande precursor não de
simbolismos e decadentismos, mas de uma vasta poesia
panteísta, onde o homem se integra no universo
aspirando sempre à mais perfeita integração”. Pouco
antes havia ressaltado que “a dor maior ou única em
seus versos é a demora, a dificuldade desse vôo (da
redenção), o peso das asas, o corpóreo da nossa condição
material da nossa animalidade”.
Já Ronald de Carvalho, na sua Pequena História da
Literatura Brasileira (1968, p.346-350), afirma que o poeta
não constituiu “simplesmente um grande ensaio falhado,
como já se tem dito”, misturando em sua poesia o
satanismo de Baudelaire e o ceticismo e misticismo
mórbido de Antero de Quental, sendo para ele “a arte
um instrumento de desabafo destemeroso e audaz”, mas
já vislumbra que “há em Cruz e Sousa, apesar de todas
as suas insuficiências, a força de um precursor”.
Eduardo Portela, em “Aventura e Desengano da
Periodização Literária”, publicado no Jornal do Comércio
(23 ago., 1959), rebate tratar-se de simples transplante
imitativo: “Cruz e Sousa foi a estilização ou reação
brasileira diante de um Simbolismo eminentemente
francês. No processo dialético do grande poeta negro
está a nota mais tipicamente brasileira de um movimento
que era francês. A condição de etnicamente marginal,
do ‘emparedado’, agravada pelas suas debilidades físicas,
outorgou-lhe uma cosmovisão de tal maneira peculiar
que o distancia convenientemente dos seus
companheiros franceses”.
Para Ivan Teixeira, (1998, p.VII), antes de imitador,
“Cruz e Sousa deve ser apreciado sobretudo como um
poeta original, no sentido de inventar um canto próprio,
que nos remete para a vida, e não apenas para as formas
literárias do estrangeiro”.
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 47
E Zahidê L. Muzart, na “Introdução” para Poesia
Completa, comemorativa do centenário de Broquéis (1993,
p.26), ousa afirmar que “a poesia moderna começa com
os simbolistas e, podemos dizer que, no Brasil, com Cruz
e Sousa, quando a poesia se tornará muito mais
autoconsciente”.

Cruz e Sousa Obra Completa Volume 1

O ESTILO DE CRUZ E SOUSA
Vários estudiosos e analistas se preocuparam com
a expressão verbal, o estilo, a investigação lingüística
na poesia de Cruz e Sousa. Entre eles Antônio de Pádua,
no livro À Margem do Estilo de Cruz e Sousa, 1946, foi o
primeiro mais detidamente preocupado com a
expressividade fonética e simbólica, a linguagem lúdica,
as metáforas e especificamente as sinestesias, bem como
a abundante criação neológica de palavras; no
Centenário de nascimento, em 1961, Osvaldo Ferreira
de Melo (1962, p.62) revisou análises diversas no estudo
“Cruz e Sousa – o Estilista”, ressaltando diversos
recursos utilizados para obter maior expressividade e
ressalvando a necessidade de “conhecer os problemas
interiores que impulsionaram a alma do escritor”.
No artigo “O Poeta Negro” (Correio da Manhã, 19
nov., 1923), José Oiticica destacou a deslumbrante
imagística do poeta, afirmando que “toda a sua poesia
se faz por alucinações, transmutações íntimas, criando
alegorias, provocando imagens, sugerindo símiles. Em
Cruz e Sousa elas se fazem automaticamente,
subconscientes na sua elaboração, reflexa em sua
expressão. Nada se mede ali, nada se brune ou doura;
irrompem, já brunidas e douradas suas concepções.
Enquanto noutros as metáforas se alinham e compõem,
nele surgem de ímpeto, desgrenhadas, como espavoridas.
Brotam do instinto feito de alucinações involuntárias e
insubmissas. Seu pensamento não se doma, nem se
apura; investe para a expressão e nela encarna-se como
pode. É um desajeitamento selvagem, turbilhonante, com
adjetivos de enxurrada, uns a lutar com os outros, sem
que se saiba qual o melhor. A frase, molde feito rígido,
48 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
se contorce ou deforma com os repelões da idéia
desconforme ou excessiva. Dá-nos a impressão de uma
guinola iluminada por poderosos focos elétricos
multicores”.
Na antologia Presença da Literatura Brasileira – II
Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Simbolismo (3
ed., 1968, p.297) Antonio Candido e José Aderaldo
Castelo observam: “O traço fundamental de Cruz e Sousa
é a potência verbal”, acrescentando logo a seguir: “O
verbalismo requintado e oratório, o senso exaltado da
melodia da palavra, o poder de criar imagens de grande
beleza, dão à sua obra um caráter de opulência. Doutro
lado, o senso do trágico e a busca ansiada da
transcendência poética lhe infundem um alto fervor”
Na sua História Concisa da Literatura Brasileira (2
ed., 1979, p.306), Alfredo Bosi destaca em Cruz e Sousa
“o emprego insólito do substantivo abstrato no plural capaz
de sugerir uma dimensão sensível no universo das idéias”
e a recorrência de “termos litúrgicos”, da “obsessão do
branco”, da presença de “objetos luminosos ou
translúcidos”, apresentando-se o poeta “dilacerado entre
matéria e espírito”. Mais adiante (p.313) contrasta os
dois maiores simbolistas brasileiros: “Cruz e Sousa,
denso e entusiasta; Alphonsus, fluido e depressivo”.
Roger Bastide (in Coutinho, 1979, p.162) destaca
a musicalidade em Cruz e Sousa, especificando: “O que
caracteriza a música simbolista, sobretudo em Verlaine,
é a linha melódica, a doçura, os suspiros longos dos
violinos. É bem essa música que Cruz e Sousa coloca
nos seus versos, para fazer esquecer o ritmo selvagem e
profundo do tantã, uma música que canta docemente,
em menor, que canta e violiniza, por exemplo, nos
‘Violões que choram.’”
Magalhães Júnior (1975), no capítulo 24: “A
Evolução Poética”, evidencia o aprendizado, os erros, as
correções que o poeta empreendeu, afirmando que “Cruz
e Sousa só chegou ao pleno desenvolvimento de seus
dons após um longo exercício”, não desconhecendo que
“nesse aprendizado poético, muitas vezes violentou a
OBRA COMPLETA VOLUME 1 CRUZ E SOUSA * 49
métrica”.
Estudos bastante específicos do estilo encontramse
em Artur de Almeida Torres: Cruz e Sousa – Aspectos
Estilísticos (1975) e Maria Helena Régis: Linguagem e
Versificação em Broquéis (1976), buscando esta aprofundar
a linguagem poética nos níveis sônico, morfológico,
sintático e semântico, para chegar a conclusões (p. 86-
88) como: “o som é muito valorizado como elemento
expressivo”; o ritmo é “quase sempre breve em Broquéis”;
“ao ritmo regular associa-se a freqüência de aliterações
e de rimas internas”; na estrutura sintática, existe
“abundância de apostos e adjuntos adnominais
encadeados, um após o outro”; “das palavras
significativas, o verbo é o que aparece menos. Há estrofes
inteiras sem um único verbo. Importante é o adjetivo” e
“entre os substantivos predominam os abstratos no
plural”.
Gilberto Mendonça Teles contribuiu para Cruz e
Sousa: no centenário de Broquéis e Missal (Organizado por
Iaponan Soares e Zahidé L. Muzart – 1994, p. 27, 28, 60)
com “Do Polichinelo ao Arlequim ou de Cruz e Sousa a
Mário de Andrade”, em que analisa cuidadosamente
pormenores da estilística, ocupando-se da frase e do
ritmo da poesia. Salienta que os simbolistas buscavam
a “poesia pura”, considerada em si mesma, na
consciência verbal da arte pela arte, tendo o poeta viva
consciência da sua arte e sondando as profundezas da
alma. Especifica que “poetas como Cruz e Sousa
perceberam que a poesia estava na linguagem e que os
temas não só perdiam a importância como podiam ser
pulverizados na linguagem”. Aponta o caráter
metalingüístico de muitos poemas de Cruz e Sousa, para,
depois, enquadrá-lo no seu tempo: “Por volta de 1890 a
ciência e as artes eram atraídas pelo sentido da
descontinuidade, inaugurada pelo barroco em face do
continuum da perspectiva clássica. O descontínuo exigia
a parataxe que, na literatura, levou à construção nominal
e esta nos seus inícios tomou a forma de enumeração
de termos isolados, como é quase obsessivo em Cruz e
50 * CRUZ E SOUSA OBRA COMPLETA VOLUME 1
Sousa.” Não admira, pois, que as inovações do poeta
tenham provocado resistências, pois “foi por aí que Cruz
e Sousa procurou desmantelar por dentro a unidade
clássica do verso, picotando-o, fragmentando-o, tirandolhe
as ligações sintáticas e a estrutura rítmica até então

indestrutível”.