Rua de Pedra

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Rua de pedra. Pedra dura.
pedra ferro
granito rosa
preto, cinza,
de outra cor que fosse
pura noção de pedra
no resplendor da montanha
monástica e severa
criada na solidão do tempo
solenemente exposta ao sol
enquanto as noites e os dias
te oxidam como metal
se oxida no fundo do mar
não és menos dura
tu que fostes arrancada
com brutalidade
de teu berço natural na montanha
onde dormias esquecida
por muitos séculos
agora dormes disposta
paralela e plana
indicando o caminho em vários
sentidos e direções
a milhares de anos
lavada pisada e repisada
gasta e polida
por milhões de pés que passaram por ti
ora por nobres a passeio
ora por escravos serviçais
descalços feridos e sangrando
somente tu poderás dizer-me
de quantos tipos de sangue
fostes dolorosamente banhada
quem te vê apenas uma pedra
de rua urbana escaldante e sonora
polida como espelho pelo tempo e uso
lavada escovada de teu pó e sangue
não sabem de quantos segredos és feita
certamente não os contarás a ninguém
apenas ouvirão de ti um imaginário
de acontecimentos passados dia após dia
acumulados como a montanha
que eras de pedra agora de fatos.
Que mãos rudes e hábeis te moldaram
neste lugar firme e plano
neste teu rejuntamento quase regular
nas tuas linhas da vida
leio como se fossem mãos de pessoas
como tudo vês e tudo guardas
um passado de que és testemunha
a cada dia mais perfeita
mais que perfeita
milhares de anos terás pela frente
teu tempo será eterno
verás muitas coisas ainda
que serão guardadas em ti
para todo o sempre
como segredos de pedra.
Quantos já levaram de ti entre os dedos
ou grudado na sola do pés
um grãozinho como lembrança
e tu absorvestes o calor
e tirastes muitos mais
dos que pisaram em ti do que destes.
Os que vistes passar já se foram
todos num único sentido
por que a vida é estrada
de mão única sem volta
não importa qual direção
quem de ti se serviu já se foi
pisando repisando
ou tristemente carregado
deixando apenas uma marca invisivel
no teu polimento lustroso em dias de chuva
brilhante em dias de sol.
Eu te olho. Vejo espelhado em ti
muitos acontecimentos passados e futuros
fotografados em preto e branco
imagens eternas por muitos séculos ainda.
Agora que estás silenciosa
caminho em ti como num tapete translúcido
que se estende lentamente sozinho
deslizando dentro da noite escura
tortuoso ou reto em aclive ou declive.
Iluminada apenas pela lua solitária
como testemunha fria e distante
guia-me os reflexos em teu chão
escuro e liso és meu caminho
tendo apenas por companhia a sombra
que se alonga além de mim mesmo
como se fosse eu andando
na minha frente antecipado.
– Escuta ! Alguém grita na minha frente
–  Que pecado! – alguma coisa medra
tua sombra a frente de teu corpo
deslizando neste chão duro de pedra.

Agosto de 2006, poema tirado do livro
“Caminhando… um passo à frente”
de Ivo Ferrari
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UTOPIA

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Gostaria de possuir
os braços longos como os olhares,
para abraçar-te em todo lugar.
Oferecer-te flores todos os dias,
que meu olhar
fosse como um vale profundo
ou uma grande cordilheira dourada
onde pudesses descansar teus olhos
e ver como num espelho
tudo o que sonhas na vida.
Descansar no silencio
dos teus seios
sentir teu cheiro de mulher
envolvido em teu sorriso
como um anjo
perdido em tua inocencia.
Meus pensamentos
como a luz da lua
penetrar nos mais secretos recantos
espiar-te
pedaço por pedaço
conhecer-te mais de perto
como uma gota d’água reluzente
pendurada numa folha verde
numa clara manhã de sol.
Abraçar-te
como um cipó selvagem
abraça uma árvore
viver de tua seiva
tornar-me uma parte de ti.
Rio do Sul, maio de 2004
Poema publicado no livro ” Caminhando… um passo a frente”
de Ivo Ferrari

O MURO

Autor: Ivo Ferrari – Novembro 2009.

Tomei uma decisão. Escalar. Escalar o muro das indecisões e colocar-me em pé em cima dele. Não o muro da dúvida, querendo apoiar um e outro. Não o muro onde quero ser visto e desejado pelos dois lados. Mas o muro da convivência, do compromisso, da clarividência, da decisão por inteiro.

–  Que visão! Nunca tinha visto os dois lados do muro por este ângulo.

–  Existe muro desse tipo? – perguntará você. Respondo eu, com outra pergunta.

– O muro que separa, que divide, que define, não é por acaso o mesmo muro que esconde, que desagrega, que desune, que isola?

Que muro é esse então! Muro contemplativo, sem compromisso, imparcial.

Se todo muro é divisor, separatista, enganador, e pode ser adjetivado de muitas formas, construído de mil maneiras, cada uma a seu modo possui as justificativas falsas e verdadeiras como as queremos definir.

O muro do ponto de vista de quem o constrói.

O muro do ponto de vista de quem o observa.

O muro de quem se isola, de quem é isolado.

Todo muro é como água e óleo, os lados não se misturam do forma nenhuma. Sua definição é: separador, divisor, isolador. Todo muro tem obrigatoriamente uma classificação: O muro da verdade e da mentira.  O muro do falso e do verdadeiro. O muro do real e do imaginário. O muro do moral e do imoral. Afinal cada um vê o muro que o outro constrói da forma que quiser, por que o meu muro não é muro, é linha demarcatória.

– Será que faz diferença!

O muro do suposto, do que queremos ser, do que queremos mostrar, do que queremos esconder, esse tipo de muro intriga as pessoas, confunde, nos torna menores. O muro do suposto que defendemos, o muro do que queremos ser, nada mais é do que o mesmo muro que condenamos nos outros.

Assim criamos nossos muros que afastam as pessoas e passamos a administrar nossas contingências. Não existe muro que agrega, que soma.

Vivendo separados por muros imaginários, sobrevivendo aos momentos duvidosos, quando esticamos o pescoço por cima do muro imaginário do vizinho para podermos ver o inimaginável, quanta astúcia de nossa parte.

Construímos um muro, não para que as pessoas não vejam o que existe lá dentro, mas para aqueles que estão lá dentro não enxergarem o que se passa lá fora.

Muro do isolamento. Da ingratidão. Do afastamento. Muro do extremo egoísmo. Do fim. Do nada.

Aprender a ler, escrever, fazer arte, inventar, tudo isso e muito mais se quisermos, podemos fazê-lo sozinhos em casa sem ajuda de ninguém. Agora, relações humanas só as conseguimos cultivar, convivendo com outros seres humanos. Sem muros de espécie nenhuma que nos separe.

Ivo Ferrari –  julho de 2009.

A  EUFORIA  DE  COMEÇAR

Todo fim é traumatizante…

Todo recomeço é traumático…

Mas a euforia de começar uma atividade diferente supera qualquer obstáculo que se interpõe no caminho da mudança.

Um objetivo que nos é imposto por nós mesmos, é maior do que as dificuldades externas que por ventura podem surgir para ofuscar, impedir, cercear esta liberdade que temos de tomar nossas próprias decisões.

Por isso me somo, me multiplico, para enfrentar a divisão, a subtração.

As dificuldades sempre serão conhecidas com o desenvolver do projeto. Elas surgem do nada, por que não as previmos. Elas aparecem de repente por que não as enxergamos ao longe. Elas são imprevisíveis por que não fazem parte do sonho. São como cracas que se agarram ao costado do navio no caminho de vasto oceano em águas consideradas limpas.

As dificuldades fazem parte da construção, do edificar, não é o limbo onde queremos implantar o projeto que nos impede, que nos dificulta. O que emperra são os fatos imprevisíveis que se agregam ao trabalho.